terça-feira, 17 de abril de 2012

Sem palavras

Lentamente esqueço cada palavra que aprendi. O alfabeto que professora Lúcia me ensinou vai sumindo como fumaça no ar. Depois de trinta e sete anos de prática verbal comprovada, tenho a sensação de que preciso emudecer. Abandonar todos os adjetivos para palavra deixar de ser. Como uma pessoa muda, deixo de proferir frases. Reconheço a beleza dos sons e fonemas, mas a marcação que mais alto vibra é surda. Como um bumbo sem pele surdo estou. Volto a comunicação mais primitiva possível: non verbal, não falada, não escrita. Os gestos, as expressões faciais - corporais, as mímicas, os olhares se tornam meu único meio de comunicar. Finalmente, sinto que retornei ao núcleo das minhas emoções e da simplicidade. Deixo de fazer digressões sobre a vida, o passado e o futuro. Me desassocio da complexidade que foi sendo ao longo da história criada ao redor da aura humana. Minha memória lexical de repente se apaga como uma lâmpada que deixa de funcionar. Retorno com a velocidade da luz ao meu coração e passo a ser pura emoção e paz, sem palavras que impeçam o encontro entre eu e minha mais linda natureza. E a força do amor que invade meu coração se espalha atômicamente pelo mundo inteiro.