Era uma moça linda, mistura de branco e índio, que lembrava uma personagem de uma novela indianista do século XIX. Se chamava Maria Isadora de Carvalho Leme Tapajós. Tinha o corpo escultural, a pele morena, os cabelos lisos acima da bunda, os peitos arrebitados e a barriga funda. Olhos grandes, sobrancelha desenhada, nariz fino e boca carnuda. O pai parecia uma mistura de caudilho desbravador com artista de teatro. A mãe possuia um ar clássico e uma resignação que vinha de berço e estava sempre ocupada com os afazeres da casa e com a criação dos três filhos menores. A mocinha, apesar de jovem, era a mais velha dos filhos.
Os pais, principalmente o pai, não sabiam bem até onde deveriam soltar ou prender a filha. Às vezes, aos finais de semana, ela pedia a ele para sair, já que se pedisse à mãe ela lhe diria: "-Fale com o seu pai." A beldade na flor da idade queria somente dar uma volta pela praça do coreto da cidadezinha, ir a um baile de forró ou fazer uma fogueira à margem de um rio com os amigos, entre eles, meninos e meninas cheios de vigor, beleza e espontaneidade. O pai a deixava ir , mas sempre lhe dizia: "-Não entregue sua rapadura. E trate de voltar antes da meia noite, que estarei em vigília te esperando."
Por dentro a menina mulher Isadora se sentia inconformada, pois se quisesse fazer algo de errado simplesmente o faria à luz do dia... Afinal de contas ela já contava com os seus 16 anos de idade. E ele, vinha sempre com essa velha história de rapadura, era incapaz de tecer um diálogo, e falava ainda que só após o casamento aceitaria vê-la enrabichada com um homem. O medo, o temor, a distância e o respeito moldavam o relacionamento entre pai e filha. A mãe, que cresceu em uma família extremamente católica, não ousava e nem sabia como interferir nessa situação. Achava que cumpria bem o papel maternal dando comida, educação e carinho.
Aos treze anos de idade, ocorreu que numa noite, a menina entrou madrugada a dentro sentindo dores na região do ventre... Além das dores nas entranhas físicas sentiu outros pesares. Se sentiu muito sozinha, sem saber o que estava acontecendo de verdade, se sentiu diferente e longe de sua família.
Maria Isadora suportou bravamente as cólicas abdominais, e no dia seguinte pálida e sonolenta após o almoço, foi ao banheiro fazer xixi, não se sentia bem, mas optou por não dizer nada, não queria ser alvo e nem dar motivo para sermão. A moça estava fria e um pouco tonta. Vivenciava a sensação do que em sua imaginação seria estar grávida. Quando pegou o papel higiênico para enxugar a parte inferior feminina, sentiu pontadas cortantes, olhou para o papel e o viu coberto de sangue e plasma. Se assustou, pensou que estava machucada por dentro; por um breve instante passou pela cabeça que estava tendo uma hemorragia fatal. Respirou fundo e lembrou da aula de biologia que falava de ciclo menstrual e acreditou que sua primeira menstuação tinha descido. Os sentimentos se dividiram entre tristeza e alegria. Chorando gritou para que a mãe viesse ao banheiro. Esta viu com os próprios olhos a prova de que sua filha tinha se tornado mulher. A mãe que ainda amamentava não tinha absorventes em casa. Deu à filha um rolinho de pano e disse friamente que ela deveria colocá-lo na calcinha para que o sangue não lhe escorresse pelas pernas. A filha pensou que depois desse acontecimento a mãe fosse conversar, mas ao contrário, o que falou mais alto foi um inquebrantável silêncio.
Três anos depois, no dia em que Isadora estava indo com os amigos para uma festa junina, podendo felizmente regressar à casa a uma da madrugada, ao pegarem um atalho, viram na beira da estrada de terra um carro parecido ao de seu pai num terreno baldio. Ela, por curiosidade, caminhou e olhou pela janela, e viu inesperadamente uma cena horrível: o pai deitado com uma mulher na parte traseira do automóvel. Ele de imediato, assustado com o barulho, encontrou os olhos desesperados da filha, que saiu correndo sem direção, nem rumo certo. A moça chorando soluçava e já não mais sentia as pedras do firme chão construido desde seu nascimento. Estava livre flutuando no espaço da decepção e da raiva. O laço da verdade estava desfeito e Isadora perdida e magoada para sempre até que se emancipasse das tradições.