sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal

Nália viu o tal
O tal moço com quem sonhava
Na Rua da Esperança, num quintal
Batendo pandeiro
Debaixo dum pé-de-côco
Num terreno de chão batido rodeado de arruda
A 700 metros de um imenso manguezal
Às vésperas de mais um Natal.

Naqueles dias iriam festejar
Com batuque, oração, feijoada (ceia) e cachaça
O nascimento de Jesus
Aquele que foi pregado na cruz 33 anos depois de nascer.

Fariam diferente
Conforme o ambiente
O sino no triângulo badalar
Ah, sim, iriam no terreiro
Dançar forró
Rodar saia de filó
Passar chapéu.

Árvore ia ter
Não pinheiro, outra
Sem vestígio de neve pra derreter
Só com bolas de enfeite coloridas.
Ave, não seria peru
Seria dum garnizé
Alimentado pra ocasião
Feito com capricho e fé.

Naquele mesmo barracão
Haveria troca de presentes
Fartura, riso, música
Para todos não ausentes
Destemunhas do amor nascente entre Nália e o tal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

deus (com inicial maiúscula)

  O ser humano por ser o único capaz de discorrer sobre o ontem e planejar o amanhã se sente como o animal mais nobre desde reino. Será que é assim mesmo? Por que nos achamos tão importantes? e criamos um discurso inebalável da Verdade?
  Perceberam que na palavra Deus está eu no meio? D+eu+s! Dos eus superiores. Dos eus supremos. Do eu sapiência. Deus: diversos eus. Dentro dela também está deu. Um dar generoso que ao longo das civilizações vem nos dando toda a matéria-prima, índices e intuições para o crescimento. Todos os elementos indispensáveis à vida: Ar, Luz, Terra e Fogo. Ar que entra pelos pulmões e mantém vivo, Luz que clareia, que faz enxergar e bronzeia. Terra, de onde vem todos os alimentos que nutrem e todas as plantas e flores que enfeitam. O Fogo nos chama pra fogueira, esquenta, assa, ferve, cozinha e encanta.
  Consciência basta para que cuidemos bem de nossa casa, nosso planeta, e de nós mesmos e todos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mão

A mão que dá tchau, que aperta a mão do outro, que limpa e organiza a casa, que enxuga a lágrima, que contém o espirro e que se fecha pra tosse, que mexe em círculos o chá, que tira cera do ouvido, que faz carinho em alguém, que corta cebola em rodelas, que tira o dinheiro da carteira e paga a conta, high five, que dedilha o violão e bate o tambor, que se toca, se masturba; que faz o símbolo da paz, que faz um gesto obsceno, que unem palmas em oração, que segura o microfone pra cantar... Erga as mãos pro céu de alegria caso possa!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Minhas

  Minhas mãos... uma das partes mais importantes do meu corpo. Com tanta gente preocupada com a bunda, a barriga, com as formas esteticamente ditas "boas"do corpo... Penso em minhas mãos, inclusive expresso graficamente o meu pensamento com a direita. Do acordar ao deitar realizo uma infinidade de coisas, trabalhos, atividades, movimentos, gestos e mais com elas. Constituídas pelo pulso, punho, cinco dedos de cada lado, unhas, ossos, músculos, nervos, tendões, vasos, pele e palmas - que podem ser lidas pelos conhecedores da quiromancia.
  Desperto, desligo o despertador com o indicador direito; levanto cambaleando com a ajuda do impulso das mãos e braços contra o meu firme colchão; bebo água; me visto; escovo os dentes; esquento um leite e ponho umas colheres de cereal; preparo um lanche; pego minha bolsa; levo o mingau do pote a boca; ponho todos os apetrechos de inverno: cachicol, casaco, gorro, luvas, passo perfume eau de toillete, pego as chaves, abro a porta, tranco por fora, desço as escadas com o apoio do corrimão, abro a porta do prédio, abro os cadeados da bicicleta, sigo pedalando para o trabalho, conduzo, chego, tranco, digito o código para entrar, desço, digito de novo; tiro as roupas protetoras, guardo meus pertences no armário, os tranco lá, bebo água. No estoque ponho "labels" de segurança em incontáveis roupas. Como pão, bebo chá... escrevo na agenda.

  Em casa depois de haver preparado comida. comido; coloco roupas no varau; preciono o controle da televisão. Ao escovar meus dentes depois de ter passado o fio dental; tenho a certeza de que minhas mãos são as partes mais importantes do meus corpo. O cérebro dá o comando e elas realizam: pegam, dobram, seguram, soltam, fazem sinais, escrevem, lavam, dobram, fecham, abrem, limpam, plantam, cortam, colocam, massageiam, apontam, tocam...
Minhas mãos estão cansadas. Preciso repousar e poupá-las pro dia de amanhã. Um raio de luz chega à minha consciência.
Me dou conta de que não preciso de bunda empinada, nem de barriga "taba", mas sim e sempre de mãos sadias para que eu possa conquistar os meus desejos  por mais banais que eles sejam. Apago a luz!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Segunda

Queria que minha vida fosse um interminável fim de semana. De passeios prolongados, descanços despreocupados. Simplesmente ter a liberdade de fazer o que se quer da vida e até mesmo nada dela. A segunda-feira sempre me deprime. Me esforço semanalmente para levar o que se pode adiante. Ah! mas que drama! Na terça tudo se resolve, as peças voltam ao lugar e até me entusiasmo com o corre-corre do dia. Já não quero mais falar disso. Quero transformar a segunda num dia bom.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Dual(idade)

Parecia uma coisa
E era outra
Era outra
E era a mesma.

Sou dualidade.
Dividida entre pólos
Opostos desde não me lembro a idade.
Raras vezes intermediários.
De vez em quando toco o ponto de equilíbrio.
Sou uma coisa e de imediato sou outra.

Me tentaram colocar uma etiqueta
Para que eu não afetasse a ordem humana
Para que eu não abalasse a segurança das categorias,
Já que aceitar a dinâmica constante da mutação
Causaria pane nos sitemas de organização.
Conformei e me enquadrei aqui.
Onde?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Vontade

Vontade de escrever
De recuperar o tempo perdido
Ardido de tanto sofrer.

Já cessou
A ilusão de atingir a perfeição acabou
Que bom! Porque o sonho de chegar ao inalcançável
Tornava-me infértil.

Vivo dias de extrema gratidão
Lágrimas nos olhos
Coração alegre incontido
Que me fazem viver (dentro do imperfeito) a perfeição.

Encontrei a paz por saber que ela não existe
Sim, raios pacíficos passam por mim
Enquanto o vizinho do lado se agoniza.
Isso é sorte ou atitude?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sou só um ser humano
Um ser humano só
Nesse mundo de meu Deus
Em busca de experiências que me transformam.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Passageira

Viu o mundo de cabeça para baixo
Não porque se sentia devastada
Mas num movimento de yoga
No topo de uma montanha na Índia.

De repente tudo estava escuro
Sem que fosse trevas
Estava só meditando de olhos fechados
Numa sala qualquer (com as luzes apagadas)
Num dia cinzento.

Se olhou no espelho
E viu um monstro
Tinha o rosto tomado pelo sarampo
Em sete dias isso passaria
Como tantas outras coisas
Passageiras da vida.


P.s.: Se quiser leia novamente de baixo para cima.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Imagem de uma bolsinha vermelha:

Pontinho por pontinho feito com carinho e amor com a ajuda de minha mãe para uma irmã.

Olhem a bolsinha que fiz...

Pensei...

Pensei:
"-Quando conhecer todas as palavras e ortografias da minha materna língua ousarei escrever. Quando bem souber pontuar e transformar meus pensamentos em texto, escreverei. Quando me tornar uma intectual direi o que penso." O tempo ia passando e raríssimas vezes me sentia preparada para O Grande Triunfo que desde pequena esperei da vida... Hoje resolvi me jogar num abismo sem chão na certeza de que sobreviverei.