quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Nordeste que vi

Gente acostumada a sofrer
Vida simples
Macaxeira, cuscuz e batata-doce
Logo ao acordar vai comer.

Povo tosco, calado
Homens se cumprimentam entre si
(com um aceno de cabeça)
Mulheres só passam, destemunham.

Povo sem frescura, sem fricote
Fino e educado por natureza
Direto e impulsivo
Perto e distânte de coisas e lugares.

Povo que reza e crê
Povo que bebe cachaça ao amanhecer
Que pesca pra comer
Que colhe coco pra vender
Que olha pro forasteiro como ET.

Povo que vive a lei do cabra-macho
A lei da mulher resignada rendeira
Homens calados, mulheres faladeiras
Sotaques e gostos diferentes:
É forró, é brega, é baião
Bandeirola, milho e São João
Pra alegrar a quadrilha na praça.

Ano passado não teve festa em Penedo
Faltou dinheiro
O povo no rochedo
E os políticos robando como de costume.

Povo religioso vivendo sua sina
Conformado com que Deus lhe deu:
Sol, peixe, água-de-côco e o Velho Chico
Ambos, como a esperança, verde.

Ônibus lotado
Todos os assentos ocupados
Gente em pé amontoada
Feliz por poder ir
Cada um em direção a sua dura sorte.

E eu lá e cá
Sendo cúmplice da "vida de gado"
De meus compatriotas nordestinos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sem palavras

Lentamente esqueço cada palavra que aprendi. O alfabeto que professora Lúcia me ensinou vai sumindo como fumaça no ar. Depois de trinta e sete anos de prática verbal comprovada, tenho a sensação de que preciso emudecer. Abandonar todos os adjetivos para palavra deixar de ser. Como uma pessoa muda, deixo de proferir frases. Reconheço a beleza dos sons e fonemas, mas a marcação que mais alto vibra é surda. Como um bumbo sem pele surdo estou. Volto a comunicação mais primitiva possível: non verbal, não falada, não escrita. Os gestos, as expressões faciais - corporais, as mímicas, os olhares se tornam meu único meio de comunicar. Finalmente, sinto que retornei ao núcleo das minhas emoções e da simplicidade. Deixo de fazer digressões sobre a vida, o passado e o futuro. Me desassocio da complexidade que foi sendo ao longo da história criada ao redor da aura humana. Minha memória lexical de repente se apaga como uma lâmpada que deixa de funcionar. Retorno com a velocidade da luz ao meu coração e passo a ser pura emoção e paz, sem palavras que impeçam o encontro entre eu e minha mais linda natureza. E a força do amor que invade meu coração se espalha atômicamente pelo mundo inteiro.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Deslaço de família

   Era uma moça linda, mistura de branco e índio, que lembrava uma personagem de uma novela indianista do século XIX. Se chamava Maria Isadora de Carvalho Leme Tapajós. Tinha o corpo escultural, a pele morena, os cabelos lisos acima da bunda, os peitos arrebitados e a barriga funda. Olhos grandes, sobrancelha desenhada, nariz fino e boca carnuda. O pai parecia uma mistura de caudilho desbravador com artista de teatro. A mãe possuia um ar clássico e uma resignação que vinha de berço e estava sempre ocupada com os afazeres da casa e com a criação dos três filhos menores. A mocinha, apesar de jovem, era a mais velha dos filhos.
   Os pais, principalmente o pai, não sabiam bem até onde deveriam soltar ou prender a filha. Às vezes, aos finais de semana, ela pedia a ele para sair, já que se pedisse à mãe ela lhe diria: "-Fale com o seu pai." A beldade na flor da idade queria somente dar uma volta pela praça do coreto da cidadezinha, ir a um baile de forró ou fazer uma fogueira à margem de um rio com os amigos, entre eles, meninos e meninas cheios de vigor, beleza e espontaneidade. O pai a deixava ir , mas sempre lhe dizia: "-Não entregue sua rapadura. E trate de voltar antes da meia noite, que estarei em vigília te esperando."
   Por dentro a menina mulher Isadora se sentia inconformada, pois se quisesse fazer algo de errado simplesmente o faria à luz do dia... Afinal de contas ela já contava com os seus 16 anos de idade. E ele, vinha sempre com essa velha história de rapadura, era incapaz de tecer um diálogo, e falava ainda que só após o casamento aceitaria vê-la enrabichada com um homem. O medo, o temor, a distância e o respeito moldavam o relacionamento entre pai e filha. A mãe, que cresceu em uma família extremamente católica, não ousava e nem sabia como interferir nessa situação. Achava que cumpria bem o papel maternal dando comida, educação e carinho.
   Aos treze anos de idade, ocorreu que numa noite, a menina entrou madrugada a dentro sentindo dores na região do ventre... Além das dores nas entranhas físicas sentiu outros pesares. Se sentiu muito sozinha, sem saber o que estava acontecendo de verdade, se sentiu diferente e longe de sua família.
Maria Isadora suportou bravamente as cólicas abdominais, e no dia seguinte pálida e sonolenta após o almoço, foi ao banheiro fazer xixi, não se sentia bem, mas optou por não dizer nada, não queria ser alvo e nem dar motivo para sermão. A moça estava fria e um pouco tonta. Vivenciava a sensação do que em sua imaginação seria estar grávida. Quando pegou o papel higiênico para enxugar a parte inferior feminina, sentiu pontadas cortantes, olhou para o papel e o viu coberto de sangue e plasma. Se assustou, pensou que estava machucada por dentro; por um breve instante passou pela cabeça que estava tendo uma hemorragia fatal. Respirou fundo e lembrou da aula de biologia que falava de ciclo menstrual e acreditou que sua primeira menstuação tinha descido. Os sentimentos se dividiram entre tristeza e alegria. Chorando gritou para que a mãe viesse ao banheiro. Esta viu com os próprios olhos a prova de que sua filha tinha se tornado mulher. A mãe que ainda amamentava não tinha absorventes em casa. Deu à filha um rolinho de pano e disse friamente que ela deveria colocá-lo na calcinha para que o sangue não lhe escorresse pelas pernas. A filha pensou que depois desse acontecimento a mãe fosse conversar, mas ao contrário, o que falou mais alto foi um inquebrantável silêncio.
   Três anos depois, no dia em que Isadora estava indo com os amigos para uma festa junina, podendo felizmente regressar à casa a uma da madrugada, ao pegarem um atalho, viram na beira da estrada de terra um carro parecido ao de seu pai num terreno baldio. Ela, por curiosidade, caminhou e olhou pela janela, e viu  inesperadamente uma cena horrível: o pai deitado com uma mulher na parte traseira do automóvel. Ele de imediato, assustado com o barulho, encontrou os olhos desesperados da filha, que saiu correndo sem direção, nem rumo certo. A moça chorando soluçava e já não mais sentia as pedras do firme chão construido desde seu nascimento. Estava livre flutuando no espaço da decepção e da raiva. O laço da verdade estava desfeito e Isadora perdida e magoada para sempre até que se emancipasse das tradições.